Ordenação de Jovens Pastores

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Ordenação de Jovens Pastores

I Timóteo 4.12

"Ninguém despreze a tua mocidade"

ORDENAÇÃO DE JOVENS PASTORES

  1. A maioria das vezes em que este texto sobre a mocidade de Timóteo é mencionada, inevitavelmente aplicou-se aos membros das igrejas que estão na faixa etária entre adolescência e juventude, no objetivo de fortalecer a autoestima deles. Ocorre, todavia, que Paulo escreveu este texto para Timóteo, a fim aumentar sua autoestima como líder de uma igreja. Ele não era apenas um jovem. Era um jovem líder de igreja, naquele tempo chamado de pastor, presbítero ou bispo.
  2. De acordo com a tradição cristã, depois de ter organizado a igreja na cidade de Éfeso e de ter permanecido ali por dois anos, o apóstolo Paulo ordenou Timóteo (I Timóteo 4.14) e o deixou nessa igreja para exercer a liderança como bispo, aliás, seu primeiro bispo (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, item 4).
  3. O problema por trás da palavra do apóstolo Paulo a Timóteo, sobre ele não se envergonhar, era porque os primeiros a ocuparem liderança junto com os apóstolos ou como sucessores, nas igrejas no mundo judaico, foram os presbíteros, assim chamados por serem anciãos, isto é, pessoas de idade mais velha (Atos 11.30; 14.23; 15.22; 20.17,28).
  4. Por ter sido ordenado jovem, Timóteo estava iniciando um novo modelo de liderança, tornando-se objeto de desprezo. A palavra original “καταφρονέω”

(kataphronéō) significava desprezar, desdenhar, menosprezar, ter um baixo conceito. Em vez de sucumbir diante de qualquer oposição que aparecesse nesse novo modelo de liderança, Timóteo deveria reagir tornando-se “padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza”, principalmente como jovem.

  1. A pergunta natural que surge como consequência da atitude de Paulo é: “Por que ordenar uma pessoa jovem para o ministério pastoral de uma igreja cristã se a prática era ordenar pessoas de idade avançada (anciãos)?”

5.1. A primeira resposta é de natureza geográfica e cultural. Se as primeiras igrejas cristãs estavam no mundo judaico, onde prevalecia a influência do judaísmo, outras igrejas surgiram no ambiente greco-romano, sob outra influência. Nesse outro mundo, a liderança de uma comunidade era exercida por um “episkopos” (επίσκοπος), palavra traduzida em nossa língua por “bispo”, que significava supervisor, aquele que vê por cima, gestor.

5.2. O segundo aspecto da resposta é que, com a mudança do ambiente, a exigência do judaísmo quanto à idade deixava de ser relevante e exigida. A liderança de Timóteo foi exercida na cidade de Éfeso, depois de acompanhar’ Paulo em outras cidades do mundo greco-romano. Por isso, tornou-se bispo de Éfeso.

  1. Outra pergunta que naturalmente surge é quanto à informação de que o apóstolo João foi quem exerceu a liderança da Igreja de Éfeso. Então, como conciliar as duas informações? Quem era o líder da igreja em Éfeso? Segundo os relatos tradicionais, João e Timóteo viveram juntos em Éfeso e dividiram a autoridade espiritual, lembrando inclusive que naquela época não existia um templo cristão na cidade, porém várias comunidades formadas em lares. Timóteo liderava um grupo formado por Paulo e João passou a liderar outro grupo sob sua iniciativa evangelística. A linha do tempo tradicional funciona assim:

* Anos 60: Paulo estabelece Timóteo como o bispo (líder administrativo) de Éfeso.

* Anos 70 a 90: Após a destruição de Jerusalém (70), o Apóstolo João muda-se para Éfeso. João chega com o status de testemunha ocular de Jesus, atuando como uma autoridade apostólica, enquanto Timóteo mantinha o cuidado pastoral, cuja responsabilidade recebera de Paulo.

* Ano 95/96: João é exilado na ilha de Patmos pelo imperador Domiciano. Nesse período, Timóteo continua liderando em Éfeso.

* Ano 97: Timóteo é martirizado durante a festa pagã da Katagogia.

* Ano 98 a 100: Com a morte do imperador Domiciano, João é libertado de Patmos e retorna a Éfeso. Ele encontra as igrejas-lares sem Timóteo. João assume a liderança final, organiza os manuscritos e escreve o seu Evangelho antes de morrer de velhice por volta do ano 100 (Chatgpt).

  1. Como resultado dessa experiência ainda vivenciada na igreja primitiva do primeiro século, as igrejas posteriores no mundo greco-romano e em outros locais, onde eram organizadas, passaram a adotar a prática de serem lideradas por jovens. Se o título de bispo deixou de existir entre as igrejas tradicionais, o título de pastor passou a ser utilizado, inclusive porque os bispos pastoreavam também (Atos 20.28), principalmente a partir da reforma protestante.

7.1. As estatísticas brasileiras mais recentes informam que cerca de 32,1% dos pastores e líderes batistas têm entre 41 e 50 anos, seguidos de perto por 26,8% do grupo de 31 a 40 anos (https://www.rtmbrasil.org.br/blogs/noticias-rtm/pesquisa-mapeia-perfil-de-pastores-e-lideres-da-igreja-brasileira-e-aponta-desafios-em-tempos-de-pandemia).

7.2. Em nosso país, um forte sinal da continuidade dessa prática na denominação é a experiência do pastor Raphael Abdalla, eleito presidente da Convenção Batista Brasileira (CBB) para o biênio 2026-2028 com apenas 31 anos de idade — tornando-se o presidente mais jovem a assumir o órgão máximo da denominação desde 1948, além de ser um jovem pastor numa igreja local.

Conclusão

Embora historiadores modernos tenham outra interpretação sobre a presença de Timóteo e João em Éfeso, nossa opção é pela interpretação tradicional como tendo maior plausibilidade. De qualquer maneira, o mais importante é que a atitude Paulo em relação a Timóteo ser ordenado e assumir a liderança da Igreja em Éfeso, deu oportunidade para que um verdadeiro exército de jovens pastores se tornasse um novo modelo para as igrejas cristãs do mundo greco-romano, ocidental e de outras partes do mundo, fora da tradição do judaísmo.