NEOPENTECOSTALISMO E SEUS DESCOBRAMENTOS(*)
Introdução
- A relevância social deste assunto, motivando sua apresentação nesta oportunidade, pode ser observada numa declaração apresentada por um professor do Departamento de Antropologia da USP, Wagner Gonçalves da Silva.
1.1. Na introdução de sua tese, ele escreveu: “O neopentecostalismo, em consequência da crença de que é preciso eliminar a presença e a ação do demônio no mundo, tem como característica classificar as outras denominações religiosas como pouco engajadas nessa batalha ou até mesmo como espaços privilegiados da ação dos demônios, os quais se disfarçariam em divindades cultuadas nesses sistemas”.
1.2. Confirmando a relevância social, versões preliminares dessa tese desse professor foram apresentadas na Jornada de Direitos Humanos, da Associação Brasileira de Antropologia e Universidade São Judas Tadeu, no VII Congresso da Associação de Estudos Brasileiros (BRASA) e XXIV Reunião da Associação Brasileira de Antropologia (https://www.scielo.br/j/mana/a/dywGNkPpwm6d8GcMVvzskHj/?format=html&lang=pt)
- A relevância evangélica pode ser observada num texto citado pela ASTE, a propósito das dificuldades que a teologia contemporânea tem de enfrentar, entre as quais eu destaco: “Tem crescido um protestantismo popular, aglomerando várias das tendências acima mencionadas, mas também oferecendo respostas pastorais aos anseios espirituais de parte significativa da população latino-americana. As denominações históricas têm crescido menos que o pentecostalismo e muito menos que o neopentecostalismo, e para eles tem perdido muitos de seus membros, a despeito de toda sua aparelhagem educacional teológica” (http://www.aetal.com/artigo1.html)
- A relevância batista pode ser observada em um dos livros publicados pelo pastor Isaltino Gomes Coelho Filho, “Neopentecostalismo – uma avaliação pastoral”. Num trecho de sua introdução, ele escreveu: “A preocupação em quantificar, em mostrar uma grande quantidade de seguidores se sobrepõe e até aniquila a preocupação com a essência do evangelho. Copiam-se métodos e modelos, preocupando-se com a quantidade e com valores materiais, e, com isto se perde a perspectiva do evangelho. Isto é preocupante... O Cristianismo vivido por muitos chamados cristãos, hoje, é uma catástrofe. A chamada ao arrependimento e a exortação ao abandono do pecado não dão ibope e nem rendem dividendos. Por foram deixados de lado, nesta visão de busca de resultados” (pg. 15,17).
Desenvolvimento
- Historicamente, os estudiosos costumam se referir à presença evangélica no Brasil como resultado de três ondas. A primeira foi decorrente da vinda do protestantismo hoje conhecido como histórico. A segunda foi o desdobramento no pentecostalismo através dos missionários que fundaram a Assembleia de Deus no Brasil. Finalmente, a terceira onda foi o neopentecostalismo, um movimento genuinamente brasileiro na forma em que conhecemos. As maiores expressões religiosas do pentecostalismo podem ser vistas também nas igrejas “Brasil Para Cristo”, “Deus é Amor”. As expressões neopentecostais passaram a ser vistas, a partir de 1970, nas igrejas “Nova Vida”, “Cristo Vive”, “Sara Nossa terra”, “Igreja Universal do Reino de Deus”, “Igreja da Graça”, “Renascer” mais recentemente a “Igreja Mundial do Poder de Deus” além de outras de menor porte.
- A compreensão do extraordinário crescimento dos movimentos pentecostais e neopentecostais também deve ser interpretada à luz do carisma de seus líderes. Sem esse referido carisma, os movimentos não teriam os resultados que conseguiram sem Davi Miranda, Robson Rodovaldo, Edir Macedo, RR Soares, Estevam Fernandes, Valdomiro Santiago. Sobre esse fato inegável, o apologista Dr. Paulo Romeiro escreveu: “A figura da uma liderança carismática é centralizadora e vital para o surgimento e expansão de qualquer segmento pentecostal. Estamos nos referindo a uma pessoa que tem uma qualidade extraordinária, quer seja uma qualidade real, pretensa ou presumida. Autoridade carismática, portanto, refere-se a um domínio sobre os homens, seja predominantemente externo ou interno, a que os governos se submetem devido à sua crença na qualidade extraordinária da pessoa específica. O feiticeiro mágico, o profeta, o chefe guerreiro, o chefe pessoal de um partido são desse tipo de governantes para os seus discípulos, seguidores, soldados, partidários, etc.” (http://mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/EST/Revistas EST/III Congresso Et Cid/Comunicacao/Gt08/Paulo Romeiro.pdf).
- Suas doutrinas embasam suas práticas, que uma vez comunicadas, atraem multidões, tais como curas, profecias, exorcismos, dons de línguas, revelações, objetos ungidos, batalha espiritual, encosto de demônios, prosperidade financeira.
3.1. A comunicação dessas doutrinas através de programas e canais de televisão, rádio, jornais e revistas, usando e abusando das técnicas de marketing, tornou-se possível por meio da arrecadação financeira sem escrúpulos, num vergonhoso mercado de troca das bênçãos pela entrega das contribuições, amparada pela legislação vigente que respeita a livre iniciativa de doações financeiras religiosas. Essa vultosa receita religiosa igualmente produziu fortuna financeira para os respectivos líderes, ignorada pelas massas religiosas.
3.2. As doutrinas voltadas para conversão, perdão de pecados, arrependimento, transformação pessoal, santificação, ética cristã, salvação eterna, ocupam um segundo plano, sendo superficialmente mencionadas. A crucificação, a ressurreição, a volta de Jesus Cristo são deixadas de lado, gerando novamente uma massa humana de cristãos nominais, sem genuína experiência de conversão.
3.3. O nome de Jesus é usado como meio para legitimar e igualar os atos carismáticos dos líderes religiosos com os atos de Cristo, gerando simultaneamente uma sutil ou ostensiva comparação com a autoridade dos apóstolos do Novo Testamento.
- Embora exista a tentação de copiar ou imitar o modelo pentecostal e neopentecostal, no objetivo de também atrair multidões para nossas igrejas tradicionais, esse pensamento deve ser rejeitado à luz de outra verdade que igualmente faz parte da revelação bíblica, qual seja: o Juízo Final.
4.1. Haverá uma prestação de contas no Juízo Final, inclusive já antecipada por Jesus Cristo para os líderes religiosos, quanto ao critério de se justificar nos milagres, devoção, exorcismo e demais práticas, o que não será aceito, pois Jesus dirá para se apartarem, uma vez que não serão reconhecidos (Mateus 7.22,23).
4.2. Das sete igrejas da Ásia, referidas no livro do Apocalipse, uma vez submetidas ao julgamento de Jesus Cristo, cinco foram rejeitadas e apenas duas foram aceitas (Apocalipse 2 e 3).
Conclusão
Uma das grandes virtudes da Igreja Batista tem sido a atitude de se manter fiel ao nome e aos ensinos de Jesus Cristo, com base no Novo Testamento, independente do número de pessoas que venham a fazer parte de suas igrejas locais. A outra virtude é evitar os exageros teológicos que são formulados e desenvolvidos como reações radicais para atrair pessoas, tais como pentecostalismo, neopentecostalismo, fundamentalismo, liberalismo. Até então, o que mais tem nos interessado é sermos aprovados por Jesus Cristo e não pela sociedade ou pelo governo ou pelos religiosos.
Autor: Edson Raposo Belchior
(*) Palestra apresentada na Ordem dos Pastores Batistas do Estado do Espírito Santo, em reunião realizada em Vitória, ES, em fevereiro de 2014.